Prof.ª Cátia
Brandão – EJA * 3º ANO
Como impedir desastres naturais como Mariana?
O desastre é apenas mais um caso em que a
combinação de ganância, falta de fiscalização e negligência leva à depredação
do planeta.
Há 30 anos, o noticiário estava povoado de imagens de gaivotas cobertas
de petróleo sendo socorridas em praias do mundo todo. Desde então, a quantidade
de desastres com petroleiros diminuiu muito, mas o desleixo com o meio ambiente
apenas migrou para outras áreas — como deixou claro o rompimento da barragem de
Mariana, controlada pela mineradora Samarco. A tragédia deixou pelo menos 15
mortos e um rastro de lama tóxica pelo Rio Doce que já chegou ao Oceano
Atlântico.
O maior retrocesso ambiental tem ocorrido na África e na Ásia. Lá, o
boom econômico ampliou a demanda por chifres de animais como os rinocerontes.
Em função disso, a caça ilegal aumentou, os bichos correm risco de extinção e o
contrabando atraiu a atenção até de grupos terroristas, que se aproveitam do
mercado ilícito para financiar suas operações em vários países.
No Brasil, as autoridades precisam encontrar soluções para pelo menos
quatro grandes problemas. O primeiro é a falta de fiscalização, que
resulta em desastres como o de Mariana. O segundo é a incapacidade de
cobrar as multas aplicadas às empresas que desrespeitam as leis (hoje,
o Ibama recolhe menos de 10% do valor das multas que aplica). O terceiro é
o desmatamento na Amazônia, que voltou a crescer em 2014 após anos de
queda. E o último, mas não menos importante, é a necessidade de
impedir a matança de ativistas ambientais, ranking no qual ocupamos a
trágica primeira posição, com larga vantagem para o segundo colocado.
RAIO-X DO MAR DE LAMA | Quantidades insanas de
manganês, mercúrio e alumínio despontam como os principais riscos de
contaminação no desastre de Mariana — prefeito diz que a “tabela periódica
inteira” está dentro da água.
Desde a ruptura da barragem da mineradora Samarco, uma grande dúvida
perturba os brasileiros: quão tóxico é o mar de lama que invadiu o interior de
Minas Gerais? O prefeito de Baixo Guandu (ES), Neto Barros, chegou a dizer que
haviam encontrado “praticamente a tabela periódica inteira dentro d’água”. Os
exames mais completos mostram que o prefeito estava exagerando um pouco: não
havia rastro de plutônio ou urânio no rio (ufa!). Mas as análises
apontaram níveis muito acima do normal dos seguintes metais: arsênio, bário,
cádmio, chumbo, cobre, ferro, mercúrio, níquel, zinco, alumínio, cromo e
manganês. Os piores casos são o do manganês (mais de 9.360 vezes além do
nível permitido), o do mercúrio (1,2 mil vezes a mais) e o do alumínio (322
vezes).
No entanto, as medições foram feitas por mais de uma instituição, e os
resultados foram muito diferentes — o que significa que talvez demore
meses, ou anos, para que os cientistas cheguem a um consenso sobre o real
impacto da lama tóxica. No caso do mercúrio, por exemplo, enquanto uma
análise indicou presença 1,2 mil vezes maior do que a recomendada, a outra
encontrou “apenas” 0,5 a mais do elemento. A divergência pode ter relação com
os pontos e as datas de coleta, uma vez que os elementos podem ficar
depositados em rochas no leito do rio. Mas, mesmo com números diferentes, o que
interessa é que todas as pesquisas revelam metais em quantidades acima
da permitida.
A Samarco, por sua vez, divulgou o resultado de pesquisas contratadas
pela própria empresa que destacam que “não há aumento da presença de metais que
poderiam contaminar a água”, mas os jornalistas não tiveram acesso ao
documento. Mais de um mês depois da tragédia, nenhum porta-voz da Samarco tinha
concordado em falar com a imprensa. O governo pretende cobrar pelo menos
R$ 20 milhões da Samarco para recuperar o Rio Doce.
Nos últimos quatro anos, o governo federal, por meio do Instituto
Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), aplicou
R$ 4,9 bilhões em multas já julgadas, sem direito a recurso. Mas arrecadou
apenas R$ 424 milhões. A taxa de sucesso é de somente 8,6%, de acordo com dados
do próprio órgão.
O PETRÓLEO É NOSSO | No
passado, aves cobertas de óleo eram o símbolo da luta pelo meio ambiente (e
contra as multinacionais), mas hoje os vazamentos estão fora de moda.
Nos anos 70, o mundo assistia a uma média de 38 derramamentos de
petróleo por ano. Agora, na década de 2010, a média anual caiu para 3,5. A
melhora do cenário está ligada ao aperto na legislação que aconteceu a partir
dos anos 80, quando desastres como o do petroleiro Exxon Valdez — que despejou
36 mil toneladas de petróleo na costa do Alasca — deixaram clara a necessidade
de reduzir esse tipo de incidente. A tragédia foi a pior da história dos
Estados Unidos até 2010, quando a plataforma Deepwater Horizon explodiu no
Golfo do México (veja abaixo). Porém, ainda que as ocorrências com petróleo
tenham diminuído, a preocupação quanto aos danos de cada desastre só
aumenta. Em função do acidente com o Exxon Valdez, 250 mil aves
marítimas, mil lontras e 14 baleias morreram.
BRASIL, O CAMPEÃO DE DESTRUIÇÃO | Temos a maior
taxa de desmatamento da floresta na comparação com os vizinhos.
Mais da metade da Amazônia está no Brasil. Então, é natural que a maior
parte do desmatamento da floresta também ocorra em solo nacional. O que talvez
não seja tão natural assim é que a maior taxa proporcional de derrubada da mata
tenha acontecido no Brasil em comparação com os nossos vizinhos. O
acúmulo de desmatamento é de 17,6% em solo brasileiro, segundo dados da
Rede Amazônica de Informação Socioambiental Georreferenciada (Raisg), um grupo
de instituições que atuam em conjunto para produzir dados sobre a floresta. De
acordo com um relatório publicado em 2015 que avalia informações coletadas
desde 1970, o Equador foi o segundo país que mais desmatou a floresta
proporcionalmente ao próprio território, com taxa de 10,7%.
Ao todo, o estudo indica que 13,3% da Amazônia já desapareceu.
A fase de maior destruição ocorreu entre 1970 e 2000, atingindo 9,7%. Na década
seguinte, o desmatamento caiu para 3,6% da área original. Engana-se quem pensa
que a exploração de madeira e a derrubada de árvores para abrir espaço para a
pecuária são os únicos inimigos da floresta. A Raisg aponta que
investimentos nas áreas de energia e infraestrutura também colaboram com a
destruição da mata. Estradas, investimentos em petróleo e gás, mineração e
construção de hidrelétricas são outras atividades que ameaçam a Amazônia nos
próximos anos.
Vale lembrar que nem todo desmatamento é considerado ilegal. Porém,
ambientalistas alertam que o progresso, mesmo quando amparado em regras, ajuda
a trazer a urbanização para o seio da floresta, favorecendo atividades
ilícitas. É por isso, por exemplo, que o desmatamento está aumentando no
Brasil. O crescimento foi de 16% no período, um total de 5.831 km², conforme
dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). De agosto de 2014 a
julho de 2015 foi desmatado o equivalente a 753 mil campos de futebol ou quase
cinco cidades do Rio de Janeiro da Amazônia Legal, de acordo com Cristiane
Mazzetti, porta-voz da campanha Amazônia, do Greenpeace.
Até a Força Nacional de Segurança foi chamada, em fevereiro de 2015,
para auxiliar na prisão de Ezequiel Castanha, empresário acusado de liderar uma
quadrilha que, sozinha, foi responsável por 20% de todo o desmatamento ocorrido
desde 2013 no Brasil.
A prisão aconteceu durante a Operação Castanheira, uma referência ao
líder do bando, que vendia fazendas a R$ 20 milhões. O grupo invadia terras
públicas, derrubava árvores e incendiava os terrenos para depois vender
ilegalmente as áreas. Segundo o Ministério Público Federal do Pará, a quadrilha
gerou um prejuízo de pelo menos R$ 500 milhões, com 15,5 mil hectares
desmatados.
Castanha, que é considerado o maior devastador da Amazônia pelas
autoridades, ficou preso por cerca de sete meses. O Ministério Público pediu à
Justiça um total de 1.077 anos de prisão para os 23 acusados por 17 tipos de
crime, incluindo lavagem de dinheiro. Enquanto esteve no xadrez, Castanha tinha
internet, cafeteira, impressora e aparelho de ginástica em sua cela — o único
item que a Justiça havia permitido era um notebook. O grileiro foi solto em 20
de outubro graças a um habeas corpus.
Enquanto parte da quadrilha, presa em agosto de 2014, estava detida, o
desmatamento da área chegou a cair de 3,4 mil hectares por semana para zero.
Castanha tem oito ações ajuizadas pelo MPF contra ele. A mais recente, de
novembro de 2015, o acusa de continuar ocupando uma área protegida de 635
hectares da Floresta Nacional do Jamanxim, em Itaituba (PA). De acordo com o
Ibama, rebanho bovino era criado no local.
Adaptado da Revista
Galileu – Editora Globo.