segunda-feira, 6 de junho de 2016

Texto para os 1ºs



Obsolescência planejada

A pré-determinação de validade de produtos é prática adotada pelas empresas para estimular cada vez mais o consumo                                                                         por Andressa Basílio

O espanhol Marcos está usando seu computador e decide imprimir mais um documento. De repente, sua impressora pára de funcionar sem nenhum motivo aparente. Ele então se dirige para a assistência mais próxima e ouve que é mais fácil e mais barato comprar uma máquina nova do que consertar a antiga. Essa história te parece familiar? É porque você também é uma vítima da obsolescência programada.
A história contada acima faz parte da introdução do documentário 
The Light Bulb Conspiracy (A conspiração da lâmpada), que mostra como as indústrias adotam práticas obscuras para diminuir a durabilidade de produtos a fim de estimular o consumo.

O filme "A Conspiração da Lâmpada" mostra como somos induzidos ao consumo

No caso do filme da espanhola Cosima Dannoritzer, Marcos acaba descobrindo que sua impressora não está quebrada, e sim que seu fabricante introduziu um micro chip para que ela travasse ao completar um número alto de impressões. Assim, o consumidor é obrigado a trocar a mercadoria antiga por uma nova.
Por meio de investigações, a cineasta espanhola descobriu que o assunto não só existia como foi discutido abertamente por muitos empresários e comerciantes ao longo dos anos. O filme acaba por abordar o assunto num aspecto histórico, contanto uma série de fatos curiosos, como a invenção de uma fibra completamente resistente para meias-calças que nunca foi posta em circulação e iPods com baterias projetadas para ter vida útil de 18 meses.

Cosima Dannoritzer diz: sempre fui fascinada por mitos que rolam por aí. Coisas como, lâmpadas que duram para sempre, mas seu inventor desaparece misteriosamente ou o carro que funciona com água e ar, cuja patente foi comprada e escondida nas profundezas dos arquivos de uma empresa poderosa. Um dia decidi fazer um filme para descobrir se tinha alguma verdade por trás desses mitos e, como podemos ver no filme, a verdade é ainda mais estranha do que tudo. Nos anos 20, um cartel definiu que as lâmpadas teriam duração única de 1.000 h em todo o mundo. Assim, as empresas conseguiriam controlar a demanda e a produção. A obsolescência planejada é uma ideia brilhante para criar empregos e mover a economia. Funciona muito bem. Porém, não podemos esquecer que, no meio disso, existe um ‘pequeno’ problema: com esse método, nós estamos usando os recursos naturais muito mais rápido do que o necessário, com o risco de esgotamento. Estamos enchendo o planeta de lixo. Então, durabilidade programada não é uma boa opção, especialmente porque não conseguimos reciclar o desperdício. Esse método de redução de durabilidade dos produtos têm sido implantado desde o início da produção em massa, quando os fabricantes começaram a produzir mais do que as pessoas conseguiam consumir. Para cada produto, ele é trabalhado de um jeito. Em peças eletrônicas, por exemplo, são inseridos chips para travar a máquina, já as roupas são feitas com tecidos menos duráveis.

Há também um elemento de obsolescência psicológica, ou seja, os consumidores jogam fora coisas que ainda parecem boas porque elas estão ‘ultrapassadas’ ou simplesmente porque elas saíram de moda. De um modo geral, muitos bens de consumo são comprados e feitos para divertir e não por necessidade.

Como o economista francês Serge Latouche ressalta em entrevista no filme, o crescimento da economia moderna é sustentada por três pilares: a obsolescência planejada, o crédito e a publicidade. Sem publicidade, as pessoas não jogariam fora coisas que ainda funcionam. Sem crédito, as pessoas não seriam capazes de sair da loja com seus novos produtos e sem a obsolescência planejada haveria menos tentação para trocar objetos o tempo todo. 

Esses três pilares ajudaram a formar na sociedade uma autoestima ligada a ter sempre o produto mais atualizado, o último que saiu, o mais moderno. Por isso, não é eliminando um dos pilares que o problema vai desaparecer, mas ele pode diminuir consideravelmente. 

No final do filme, nós introduzimos brevemente três possíveis soluções. A primeira é design que facilita a reciclagem, ou seja, coisas feitas de materiais que podem ser reutilizados de forma eficiente depois. A segunda forma, e mais fácil de ser executada, seria planejar ideias de negócios que envolvam produtos mais duradouros. E a terceira – uma ideia mais radical – seria mudar a filosofia de crescimento e riqueza. Nessa perspectiva, em vez de resíduos e horas de trabalho, devemos aumentar o crescimento do tempo livre, da educação, da amizade e do compartilhamento de bens. 

Latouche diz – e eu concordo com ele – que nós não precisamos abdicar de comprar coisas, podemos manter um nível de consumo igual a, por exemplo, a França da década de 60 e continuar levando uma vida moderna. Naquela época, as pessoas tinham máquinas modernas, mas não tinham TVs em cada cômodo da casa e carros espalhados pela garagem, substituídos a cada dois anos. 

Uma sociedade consumista como a nossa e a obsolescência programada nos custa tempo. Se quisermos comprar novas coisas, precisamos trabalhar mais para ganhar dinheiro. Um estudo alemão recente constatou que a durabilidade planejada custa, pelo menos, 30 minutos adicional de trabalho todos os dias.

Acho que todo mundo tem que encontrar seu próprio jeito, mas, felizmente, há muitas formas de viver em uma sociedade sustentável. No Reino Unido, por exemplo, muitas pessoas não têm dinheiro suficiente no final do mês para comprar coisas maiores, como uma máquina de lavar. Aí as pessoas alugam esses aparelhos, levando as roupas para lavar em lavanderias comunitárias, por exemplo. 

Eu, pessoalmente, tento comprar roupas de segunda mão. Se uma peça de roupa chega ao mercado de segunda mão e ainda parece ser bom, é porque já foi testado, aprovado, lavado várias vezes, e, provavelmente vai durar mais algum tempo.

Envolvimento com reciclagem e menos desperdício. Eu acho que o custo total do produto devia fazer parte do preço, não só o preço da venda rápida, mas também o custo da reciclagem e da reparação dos danos para o meio ambiente. Muitos recursos usados em produtos poderiam ser reutilizados em vez de serem despejados em um aterro sanitário qualquer. Uma vez ouvi dizer que há mais ouro dentro de uma tonelada de celulares descartados do que dentro de uma tonelada de rocha em uma mina de ouro!

Bom, eu acho que o consumidor precisa dar o primeiro passo e começara a comprar produtos mais duradouros e reparar máquinas quebradas em vez de comprar novas. Podemos também compartilhar informações sobre produtos que são melhores e mais baratos. Mas é essencial que os governos ajudem os consumidores, por exemplo, através da extensão de períodos de garantia, de leis que protegem consumidores contra fraudes, cobrando empresas para prestarem contas sobre poluição e desperdício. Poderiam também investir em educação, em reciclagem, design mais eficiente e oficinas sobre melhor utilização da energia.

Sim, a consciência está crescendo, pois estamos produzindo cada vez mais lixo e isso está sendo perceptível. Está mais difícil esconder uma carga de resíduos tóxicos na África, como acontecia com frequência antigamente. Na Europa, as pessoas estão desenvolvendo mais alergias em decorrência de materiais tóxicos. E de maneira geral, as pessoas têm contas de crédito para pagar grandes demais para gastarem tempo fazendo compras. 

Adaptado da Revista Galileu- Editora Globo.

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