segunda-feira, 6 de junho de 2016

Texto 2ºs


Prof.ª Cátia Brandão – EJA  * 2º ANO

No futuro, plantações estarão dentro das grandes cidades.

Em 2050, nosso planeta terá 9 bilhões de pessoas para alimentar. O que fazer até lá?

Em uma das áreas mais valorizadas de Greenpoint, na região do Brooklyn, em Nova York, uma antiga fábrica abriga uma fazenda urbana que se apresenta como possível salvação para a  escassez de comida  que, segundo a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), deverá afetar o mundo todo em menos de 15 anos. De fora, nada indica uma propriedade tão inovadora assim: só dá para ver as estruturas antigas do prédio, um letreiro de divulgação de uma empresa que não existe mais e alguns metais já enferrujados. Mas basta entrar na construção para entender a revolução que o jovem empresário Viraj Puri, fundador da startup Gotham Greens e dono da tal  fazenda, vem tentando empreender.

O pavilhão parece saído de um filme de ficção científica: as mudas, cultivadas em uma espécie de estufa, são todas verdíssimas e estão cercadas de computadores. Com aproximadamente 1,5 mil m², essa plantação foi a precursora de um movimento iniciado ainda em 2011, quando Puri resolveu cultivar hortaliças, ervas e alguns vegetais hidropônicos no telhado da antiga fábrica — depois, vieram mais três unidades, totalizando hoje quatro fazendas nesses moldes, instaladas em Nova York e em Chicago, com produção anual de mais de 20 milhões de mudas. “Conseguimos produzir o ano inteiro, independentemente do sistema de estações e safras que permeia a agricultura convencional. Isso possibilita uma produção até 50% maior do que a de uma fazenda comum, com economia de energia de 25% por quilo de muda produzida”, afirma Puri.

 (Foto: Revista Galileu)A área foi projetada para ser totalmente sustentável. Ela tem, por exemplo, várias placas fotovoltaicas que alimentam as luzes de LED responsáveis por garantir a fotossíntese das plantas mesmo quando há pouco sol. Fora isso, uma estrutura coberta de vidros, um sistema de ventilação passiva e cortinas térmicas permitem controlar qualquer décimo de grau centígrado da temperatura ali dentro, independentemente do frio ou do calor que faça fora. A irrigação é feita por um sistema inteligente, que analisa a quantidade de água que as plantas requerem em cada horário do dia. Esse mesmo sistema também emprega a recirculação e reutilização da água. Para completar, toda a produção é livre de pesticidas e não há qualquer tipo de escoamento de fertilizantes nas águas subterrâneas (uma das principais causas de poluição da água potável atualmente). “Nosso método requer dez vezes menos água do que os sistemas convencionais e não contribui para a poluição dos lençóis freáticos”, afirma Puri. A fazenda de Puri foi a primeira plantação desse tipo criada nos Estados Unidos em escala comercial, mas hoje já existem dezenas de outras como ela, estruturadas dentro de edifícios ou no topo de construções de grandes cidades. Em comum, todas permitem plantar — sem um grama de terra sequer — alimentos com o máximo de eficiência possível, utilizando altíssima tecnologia computacional para controlar a incidência de raios solares, a absorção de nutrientes e até a circulação de ar.

MAIS COM MENOS
O mundo deve aumentar em 70% a produção de alimentos até 2050 para atender à crescente demanda global. “Precisamos buscar sistemas alimentares que sejam independentes do clima”, diz Allison Kopf, CEO da Agrilyst, startup norte-americana especializada em processamento de dados para fazendas. “Por ‘independentes do clima’ quero dizer um modelo indoor, em áreas internas com todas as variáveis controladas”, complementa.

Kopf ajuda os agricultores entusiastas da tecnologia a coletar e avaliar dados referentes às suas plantações para um controle completo do cultivo. Por meio de sensores instalados nas plantações, eles calculam a necessidade de maior ou menor irrigação e acompanham a absorção de raios solares e nutrientes quase em tempo real. Além disso, conseguem controlar a circulação de ar e, assim, estabilizar a temperatura. O slogan da empresa — “Suas plantas estão falando, e nós estamos aqui para escutá-las” — não é só marketing. Os analistas de fato têm acesso a relatórios atualizados constantemente com centenas de informações sobre cada uma das plantinhas.

“Mais dados nos levam a maior eficiência, o que pode diminuir custos e gerar menos desperdício de alimentos”, ela diz. “Mas o foco é produzir mais com menos, não só por conta de questões financeiras mas principalmente pela economia de recursos naturais. É claro que as fazendas indoor, sejam elas verticais instaladas em grandes edifícios, sejam estufas construídas sobre as coberturas, não substituirão por completo a agricultura convencional, porém acredito que contribuirão para a produção de mais comida no futuro”, afirma.Hoje, mais de 800 milhões de hectares de terras — quase 40% da superfície terrestre do planeta — são usados para a agricultura. Esse tipo de cultivo é mantido há mais de 10 mil anos, o que tem gerado um desgaste muito grande dos solos em função da monocultura e da contaminação por pesticidas. “Se começarmos a produzir mais alimentos em um modelo indoor, precisaremos de menos áreas abertas. Isso vai permitir que os solos recuperem seu processo natural, restaurando os ecossistemas danificados”, ressalta Dickson Despommier, professor da área de Saúde Pública da Universidade Columbia, nos Estados Unidos, e autor do livro The Vertical Farm — Feeding the World in 21st Century (A Fazenda Vertical — Alimentando o Mundo no Século 21, ainda sem previsão de publicação no Brasil). Para o professor, o modelo tradicional de cultivo tende a ficar ainda mais difícil à medida que o aquecimento global se intensificar. Dados do Painel Brasileiro de Mudanças Climáticas indicam que o Brasil poderá perder cerca de 11 milhões de hectares de terras agriculturáveis em virtude das mudanças climáticas até 2030. “O cultivo em áreas internas é uma boa solução porque pode ser feito em qualquer lugar, já que as condições de desenvolvimento das plantas são facilmente controladas”, destaca Despommier. “Também é uma ótima alternativa porque permite que os alimentos sejam produzidos durante o ano todo. Eu sou otimista quanto a isso, acho que as fazendas verticais se tornarão bastante comuns daqui a cinco ou dez anos.”

COMIDA INTERATIVA
Em Cingapura, um novo modelo de fazenda vertical está sendo construído com o intuito de aumentar a interação entre as pessoas e a comida (veja acima). Desenvolvido pelo escritório de arquitetura e design urbano Spark, trata-se de um condomínio voltado para a terceira idade que envolve telhados verdes e sacadas com cultivo de alimentos. No térreo, há uma fazenda urbana em que os próprios moradores podem trabalhar, além de áreas privativas para que eles cultivem hortaliças, ervas e até vegetais em suas próprias sacadas. Por meio de um tanque de peixes instalado na cobertura do prédio, a água rica em matéria orgânica circula por dutos por todos os apartamentos levando nutrientes para as plantas cultivadas ali. A água já utilizada, bem como aquela que é captada da chuva, é conduzida a um centro de tratamento que alimenta o tanque, recomeçando o ciclo. “Assim, garantimos alimentos frescos, crocantes e nutritivos para todos os moradores”, afirma o CEO da Spark, Chris Quin.

“Há centenas de projetos de fazendas urbanas sendo desenvolvidos, mas acredito que é imprescindível aumentar a interação das pessoas com os alimentos que elas consomem”, afirma o professor Despommier, da Columbia. O Whole Foods Market, famosa rede norte-americana de produtos orgânicos, fez uma parceria com a Gotham Greens para que a startup construísse uma plantação sobre a cobertura de uma de suas lojas, em Gowanus, também no Brooklyn. Ali, o mercado se orgulha de vender hortaliças cultivadas no próprio telhado. “O fato de produzir exatamente onde o alimento será consumido proporciona economia de até 98% de combustível do transporte, algo fundamental para diminuir a pegada de carbono e a emissão de gases de efeito estufa”, diz Puri. O caminho, acreditam os especialistas, é trazer as fazendas para as cidades, onde está a maior concentração de pessoas. Só no Brasil, mais de 80% da população vive em áreas urbanas, segundo o IBGE. A expectativa é de que esse número ultrapasse os 93% em 2050. E as novas tecnologias de cultivo permitem trazer a comida para perto de toda essa gente. Espaço não falta, por incrível que pareça. Basta usar a criatividade.

Em Londres, a startup Growing Undergroung usa túneis abandonados que funcionavam como abrigos antibombas durante a Segunda Guerra para cultivar brotos de ervilha, rabanetes, coentro, rúcula e aipo para consumo comercial. O local é uma mistura de batcaverna com laboratório do Walter White, o protagonista da série Breaking Bad que fabricava metanfetamina. Os fundadores não revelam a localização exata com medo de depredações. “Mas podemos dizer que estamos a menos de 3 quilômetros de distância do coração de Londres”, afirmam. Vários chefs da cidade já abastecem suas cozinhas com vegetais cultivados nos túneis. A startup, que recebeu 1 milhão de euros em financiamento coletivo e espera ampliar sua atuação em outros espaços, mostra que as fazendas urbanas podem mesmo ser a luz no fim do túnel para a falta de alimentos.     

 REVISTA GALILEU – EDITORA GLOBO 2016.

Texto para os 1ºs



Obsolescência planejada

A pré-determinação de validade de produtos é prática adotada pelas empresas para estimular cada vez mais o consumo                                                                         por Andressa Basílio

O espanhol Marcos está usando seu computador e decide imprimir mais um documento. De repente, sua impressora pára de funcionar sem nenhum motivo aparente. Ele então se dirige para a assistência mais próxima e ouve que é mais fácil e mais barato comprar uma máquina nova do que consertar a antiga. Essa história te parece familiar? É porque você também é uma vítima da obsolescência programada.
A história contada acima faz parte da introdução do documentário 
The Light Bulb Conspiracy (A conspiração da lâmpada), que mostra como as indústrias adotam práticas obscuras para diminuir a durabilidade de produtos a fim de estimular o consumo.

O filme "A Conspiração da Lâmpada" mostra como somos induzidos ao consumo

No caso do filme da espanhola Cosima Dannoritzer, Marcos acaba descobrindo que sua impressora não está quebrada, e sim que seu fabricante introduziu um micro chip para que ela travasse ao completar um número alto de impressões. Assim, o consumidor é obrigado a trocar a mercadoria antiga por uma nova.
Por meio de investigações, a cineasta espanhola descobriu que o assunto não só existia como foi discutido abertamente por muitos empresários e comerciantes ao longo dos anos. O filme acaba por abordar o assunto num aspecto histórico, contanto uma série de fatos curiosos, como a invenção de uma fibra completamente resistente para meias-calças que nunca foi posta em circulação e iPods com baterias projetadas para ter vida útil de 18 meses.

Cosima Dannoritzer diz: sempre fui fascinada por mitos que rolam por aí. Coisas como, lâmpadas que duram para sempre, mas seu inventor desaparece misteriosamente ou o carro que funciona com água e ar, cuja patente foi comprada e escondida nas profundezas dos arquivos de uma empresa poderosa. Um dia decidi fazer um filme para descobrir se tinha alguma verdade por trás desses mitos e, como podemos ver no filme, a verdade é ainda mais estranha do que tudo. Nos anos 20, um cartel definiu que as lâmpadas teriam duração única de 1.000 h em todo o mundo. Assim, as empresas conseguiriam controlar a demanda e a produção. A obsolescência planejada é uma ideia brilhante para criar empregos e mover a economia. Funciona muito bem. Porém, não podemos esquecer que, no meio disso, existe um ‘pequeno’ problema: com esse método, nós estamos usando os recursos naturais muito mais rápido do que o necessário, com o risco de esgotamento. Estamos enchendo o planeta de lixo. Então, durabilidade programada não é uma boa opção, especialmente porque não conseguimos reciclar o desperdício. Esse método de redução de durabilidade dos produtos têm sido implantado desde o início da produção em massa, quando os fabricantes começaram a produzir mais do que as pessoas conseguiam consumir. Para cada produto, ele é trabalhado de um jeito. Em peças eletrônicas, por exemplo, são inseridos chips para travar a máquina, já as roupas são feitas com tecidos menos duráveis.

Há também um elemento de obsolescência psicológica, ou seja, os consumidores jogam fora coisas que ainda parecem boas porque elas estão ‘ultrapassadas’ ou simplesmente porque elas saíram de moda. De um modo geral, muitos bens de consumo são comprados e feitos para divertir e não por necessidade.

Como o economista francês Serge Latouche ressalta em entrevista no filme, o crescimento da economia moderna é sustentada por três pilares: a obsolescência planejada, o crédito e a publicidade. Sem publicidade, as pessoas não jogariam fora coisas que ainda funcionam. Sem crédito, as pessoas não seriam capazes de sair da loja com seus novos produtos e sem a obsolescência planejada haveria menos tentação para trocar objetos o tempo todo. 

Esses três pilares ajudaram a formar na sociedade uma autoestima ligada a ter sempre o produto mais atualizado, o último que saiu, o mais moderno. Por isso, não é eliminando um dos pilares que o problema vai desaparecer, mas ele pode diminuir consideravelmente. 

No final do filme, nós introduzimos brevemente três possíveis soluções. A primeira é design que facilita a reciclagem, ou seja, coisas feitas de materiais que podem ser reutilizados de forma eficiente depois. A segunda forma, e mais fácil de ser executada, seria planejar ideias de negócios que envolvam produtos mais duradouros. E a terceira – uma ideia mais radical – seria mudar a filosofia de crescimento e riqueza. Nessa perspectiva, em vez de resíduos e horas de trabalho, devemos aumentar o crescimento do tempo livre, da educação, da amizade e do compartilhamento de bens. 

Latouche diz – e eu concordo com ele – que nós não precisamos abdicar de comprar coisas, podemos manter um nível de consumo igual a, por exemplo, a França da década de 60 e continuar levando uma vida moderna. Naquela época, as pessoas tinham máquinas modernas, mas não tinham TVs em cada cômodo da casa e carros espalhados pela garagem, substituídos a cada dois anos. 

Uma sociedade consumista como a nossa e a obsolescência programada nos custa tempo. Se quisermos comprar novas coisas, precisamos trabalhar mais para ganhar dinheiro. Um estudo alemão recente constatou que a durabilidade planejada custa, pelo menos, 30 minutos adicional de trabalho todos os dias.

Acho que todo mundo tem que encontrar seu próprio jeito, mas, felizmente, há muitas formas de viver em uma sociedade sustentável. No Reino Unido, por exemplo, muitas pessoas não têm dinheiro suficiente no final do mês para comprar coisas maiores, como uma máquina de lavar. Aí as pessoas alugam esses aparelhos, levando as roupas para lavar em lavanderias comunitárias, por exemplo. 

Eu, pessoalmente, tento comprar roupas de segunda mão. Se uma peça de roupa chega ao mercado de segunda mão e ainda parece ser bom, é porque já foi testado, aprovado, lavado várias vezes, e, provavelmente vai durar mais algum tempo.

Envolvimento com reciclagem e menos desperdício. Eu acho que o custo total do produto devia fazer parte do preço, não só o preço da venda rápida, mas também o custo da reciclagem e da reparação dos danos para o meio ambiente. Muitos recursos usados em produtos poderiam ser reutilizados em vez de serem despejados em um aterro sanitário qualquer. Uma vez ouvi dizer que há mais ouro dentro de uma tonelada de celulares descartados do que dentro de uma tonelada de rocha em uma mina de ouro!

Bom, eu acho que o consumidor precisa dar o primeiro passo e começara a comprar produtos mais duradouros e reparar máquinas quebradas em vez de comprar novas. Podemos também compartilhar informações sobre produtos que são melhores e mais baratos. Mas é essencial que os governos ajudem os consumidores, por exemplo, através da extensão de períodos de garantia, de leis que protegem consumidores contra fraudes, cobrando empresas para prestarem contas sobre poluição e desperdício. Poderiam também investir em educação, em reciclagem, design mais eficiente e oficinas sobre melhor utilização da energia.

Sim, a consciência está crescendo, pois estamos produzindo cada vez mais lixo e isso está sendo perceptível. Está mais difícil esconder uma carga de resíduos tóxicos na África, como acontecia com frequência antigamente. Na Europa, as pessoas estão desenvolvendo mais alergias em decorrência de materiais tóxicos. E de maneira geral, as pessoas têm contas de crédito para pagar grandes demais para gastarem tempo fazendo compras. 

Adaptado da Revista Galileu- Editora Globo.

Texto 3º Cátia


Prof.ª Cátia Brandão – EJA  * 3º ANO

Como impedir desastres naturais como Mariana?

O desastre é apenas mais um caso em que a combinação de ganância, falta de fiscalização e negligência leva à depredação do planeta.

Há 30 anos, o noticiário estava povoado de imagens de gaivotas cobertas de petróleo sendo socorridas em praias do mundo todo. Desde então, a quantidade de desastres com petroleiros diminuiu muito, mas o desleixo com o meio ambiente apenas migrou para outras áreas — como deixou claro o rompimento da barragem de Mariana, controlada pela mineradora Samarco. A tragédia deixou pelo menos 15 mortos e um rastro de lama tóxica pelo Rio Doce que já chegou ao Oceano Atlântico.

O maior retrocesso ambiental tem ocorrido na África e na Ásia. Lá, o boom econômico ampliou a demanda por chifres de animais como os rinocerontes. Em função disso, a caça ilegal aumentou, os bichos correm risco de extinção e o contrabando atraiu a atenção até de grupos terroristas, que se aproveitam do mercado ilícito para financiar suas operações em vários países.

No Brasil, as autoridades precisam encontrar soluções para pelo menos quatro grandes problemas. O primeiro é a falta de fiscalização, que resulta em desastres como o de Mariana. O segundo é a incapacidade de cobrar as multas aplicadas às empresas que desrespeitam as leis (hoje, o Ibama recolhe menos de 10% do valor das multas que aplica). O terceiro é o desmatamento na Amazônia, que voltou a crescer em 2014 após anos de queda. E o último, mas não menos importante, é a necessidade de impedir a matança de ativistas ambientais, ranking no qual ocupamos a trágica primeira posição, com larga vantagem para o segundo colocado.

RAIO-X DO MAR DE LAMA | Quantidades insanas de manganês, mercúrio e alumínio despontam como os principais riscos de contaminação no desastre de Mariana — prefeito diz que a “tabela periódica inteira” está dentro da água.

Desde a ruptura da barragem da mineradora Samarco, uma grande dúvida perturba os brasileiros: quão tóxico é o mar de lama que invadiu o interior de Minas Gerais? O prefeito de Baixo Guandu (ES), Neto Barros, chegou a dizer que haviam encontrado “praticamente a tabela periódica inteira dentro d’água”. Os exames mais completos mostram que o prefeito estava exagerando um pouco: não havia rastro de plutônio ou urânio no rio (ufa!). Mas as análises apontaram níveis muito acima do normal dos seguintes metais: arsênio, bário, cádmio, chumbo, cobre, ferro, mercúrio, níquel, zinco, alumínio, cromo e manganês. Os piores casos são o do manganês (mais de 9.360 vezes além do nível permitido), o do mercúrio (1,2 mil vezes a mais) e o do alumínio (322 vezes).

No entanto, as medições foram feitas por mais de uma instituição, e os resultados foram muito diferentes — o que significa que talvez demore meses, ou anos, para que os cientistas cheguem a um consenso sobre o real impacto da lama tóxica. No caso do mercúrio, por exemplo, enquanto uma análise indicou presença 1,2 mil vezes maior do que a recomendada, a outra encontrou “apenas” 0,5 a mais do elemento. A divergência pode ter relação com os pontos e as datas de coleta, uma vez que os elementos podem ficar depositados em rochas no leito do rio. Mas, mesmo com números diferentes, o que interessa é que todas as pesquisas revelam metais em quantidades acima da permitida.

A Samarco, por sua vez, divulgou o resultado de pesquisas contratadas pela própria empresa que destacam que “não há aumento da presença de metais que poderiam contaminar a água”, mas os jornalistas não tiveram acesso ao documento. Mais de um mês depois da tragédia, nenhum porta-voz da Samarco tinha concordado em falar com a imprensa. O governo pretende cobrar pelo menos R$ 20 milhões da Samarco para recuperar o Rio Doce.

Nos últimos quatro anos, o governo federal, por meio do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), aplicou R$ 4,9 bilhões em multas já julgadas, sem direito a recurso. Mas arrecadou apenas R$ 424 milhões. A taxa de sucesso é de somente 8,6%, de acordo com dados do próprio órgão.

O PETRÓLEO É NOSSO | No passado, aves cobertas de óleo eram o símbolo da luta pelo meio ambiente (e contra as multinacionais), mas hoje os vazamentos estão fora de moda.

Nos anos 70, o mundo assistia a uma média de 38 derramamentos de petróleo por ano. Agora, na década de 2010, a média anual caiu para 3,5. A melhora do cenário está ligada ao aperto na legislação que aconteceu a partir dos anos 80, quando desastres como o do petroleiro Exxon Valdez — que despejou 36 mil toneladas de petróleo na costa do Alasca — deixaram clara a necessidade de reduzir esse tipo de incidente. A tragédia foi a pior da história dos Estados Unidos até 2010, quando a plataforma Deepwater Horizon explodiu no Golfo do México (veja abaixo). Porém, ainda que as ocorrências com petróleo tenham diminuído, a preocupação quanto aos danos de cada desastre só aumenta. Em função do acidente com o Exxon Valdez, 250 mil aves marítimas, mil lontras e 14 baleias morreram.

BRASIL, O CAMPEÃO DE DESTRUIÇÃO | Temos a maior taxa de desmatamento da floresta na comparação com os vizinhos.

Mais da metade da Amazônia está no Brasil. Então, é natural que a maior parte do desmatamento da floresta também ocorra em solo nacional. O que talvez não seja tão natural assim é que a maior taxa proporcional de derrubada da mata tenha acontecido no Brasil em comparação com os nossos vizinhos. O acúmulo de desmatamento é de 17,6% em solo brasileiro, segundo dados da Rede Amazônica de Informação Socioambiental Georreferenciada (Raisg), um grupo de instituições que atuam em conjunto para produzir dados sobre a floresta. De acordo com um relatório publicado em 2015 que avalia informações coletadas desde 1970, o Equador foi o segundo país que mais desmatou a floresta proporcionalmente ao próprio território, com taxa de 10,7%.

Ao todo, o estudo indica que 13,3% da Amazônia já desapareceu. A fase de maior destruição ocorreu entre 1970 e 2000, atingindo 9,7%. Na década seguinte, o desmatamento caiu para 3,6% da área original. Engana-se quem pensa que a exploração de madeira e a derrubada de árvores para abrir espaço para a pecuária são os únicos inimigos da floresta. A Raisg aponta que investimentos nas áreas de energia e infraestrutura também colaboram com a destruição da mata. Estradas, investimentos em petróleo e gás, mineração e construção de hidrelétricas são outras atividades que ameaçam a Amazônia nos próximos anos.

Vale lembrar que nem todo desmatamento é considerado ilegal. Porém, ambientalistas alertam que o progresso, mesmo quando amparado em regras, ajuda a trazer a urbanização para o seio da floresta, favorecendo atividades ilícitas. É por isso, por exemplo, que o desmatamento está aumentando no Brasil. O crescimento foi de 16% no período, um total de 5.831 km², conforme dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). De agosto de 2014 a julho de 2015 foi desmatado o equivalente a 753 mil campos de futebol ou quase cinco cidades do Rio de Janeiro da Amazônia Legal, de acordo com Cristiane Mazzetti, porta-voz da campanha Amazônia, do Greenpeace.

Até a Força Nacional de Segurança foi chamada, em fevereiro de 2015, para auxiliar na prisão de Ezequiel Castanha, empresário acusado de liderar uma quadrilha que, sozinha, foi responsável por 20% de todo o desmatamento ocorrido desde 2013 no Brasil.

A prisão aconteceu durante a Operação Castanheira, uma referência ao líder do bando, que vendia fazendas a R$ 20 milhões. O grupo invadia terras públicas, derrubava árvores e incendiava os terrenos para depois vender ilegalmente as áreas. Segundo o Ministério Público Federal do Pará, a quadrilha gerou um prejuízo de pelo menos R$ 500 milhões, com 15,5 mil hectares desmatados.

Castanha, que é considerado o maior devastador da Amazônia pelas autoridades, ficou preso por cerca de sete meses. O Ministério Público pediu à Justiça um total de 1.077 anos de prisão para os 23 acusados por 17 tipos de crime, incluindo lavagem de dinheiro. Enquanto esteve no xadrez, Castanha tinha internet, cafeteira, impressora e aparelho de ginástica em sua cela — o único item que a Justiça havia permitido era um notebook. O grileiro foi solto em 20 de outubro graças a um habeas corpus.

 

Enquanto parte da quadrilha, presa em agosto de 2014, estava detida, o desmatamento da área chegou a cair de 3,4 mil hectares por semana para zero. Castanha tem oito ações ajuizadas pelo MPF contra ele. A mais recente, de novembro de 2015, o acusa de continuar ocupando uma área protegida de 635 hectares da Floresta Nacional do Jamanxim, em Itaituba (PA). De acordo com o Ibama, rebanho bovino era criado no local.

Adaptado da Revista Galileu – Editora Globo.