Prof.ª Cátia Brandão –
EJA * 2º ANO
No futuro, plantações
estarão dentro das grandes cidades.
Em 2050, nosso
planeta terá 9 bilhões de pessoas para alimentar. O que fazer até lá?
Em uma das áreas mais valorizadas de Greenpoint, na
região do Brooklyn, em Nova York, uma antiga fábrica abriga uma fazenda urbana
que se apresenta como possível salvação para a escassez de comida
que, segundo a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura
(FAO), deverá afetar o mundo todo em menos de 15 anos. De fora, nada indica uma
propriedade tão inovadora assim: só dá para ver as estruturas antigas do
prédio, um letreiro de divulgação de uma empresa que não existe mais e alguns
metais já enferrujados. Mas basta entrar na construção para entender a
revolução que o jovem empresário Viraj Puri, fundador da startup Gotham Greens
e dono da tal fazenda, vem tentando empreender.
O pavilhão parece saído de um filme de ficção
científica: as mudas, cultivadas em uma espécie de estufa, são todas
verdíssimas e estão cercadas de computadores. Com aproximadamente 1,5 mil m²,
essa plantação foi a precursora de um movimento iniciado ainda em 2011,
quando Puri resolveu cultivar hortaliças, ervas e alguns vegetais
hidropônicos no telhado da antiga fábrica — depois, vieram mais três
unidades, totalizando hoje quatro fazendas nesses moldes, instaladas em Nova
York e em Chicago, com produção anual de mais de 20 milhões de mudas.
“Conseguimos produzir o ano inteiro, independentemente do sistema de estações e
safras que permeia a agricultura convencional. Isso possibilita uma
produção até 50% maior do que a de uma fazenda comum, com economia de energia
de 25% por quilo de muda produzida”, afirma Puri.
A
área foi projetada para ser totalmente sustentável. Ela tem, por exemplo, várias
placas fotovoltaicas que alimentam as luzes de LED responsáveis por garantir a
fotossíntese das plantas mesmo quando há pouco sol. Fora isso, uma
estrutura coberta de vidros, um sistema de ventilação passiva e cortinas térmicas
permitem controlar qualquer décimo de grau centígrado da temperatura ali
dentro, independentemente do frio ou do calor que faça fora. A irrigação é
feita por um sistema inteligente, que analisa a quantidade de água que as
plantas requerem em cada horário do dia. Esse mesmo sistema também emprega
a recirculação e reutilização da água. Para completar, toda a produção é livre
de pesticidas e não há qualquer tipo de escoamento de fertilizantes nas águas
subterrâneas (uma das principais causas de poluição da água potável
atualmente). “Nosso método requer dez vezes menos água do que os sistemas
convencionais e não contribui para a poluição dos lençóis freáticos”,
afirma Puri. A fazenda de Puri foi a primeira plantação desse tipo criada nos
Estados Unidos em escala comercial, mas hoje já existem dezenas de
outras como ela, estruturadas dentro de edifícios ou no topo de construções de
grandes cidades. Em comum, todas permitem plantar — sem um grama de terra
sequer — alimentos com o máximo de eficiência possível, utilizando altíssima
tecnologia computacional para controlar a incidência de raios solares, a
absorção de nutrientes e até a circulação de ar.
MAIS
COM MENOS
O mundo deve aumentar em 70% a produção de alimentos até 2050 para atender à crescente demanda global. “Precisamos buscar sistemas alimentares que sejam independentes do clima”, diz Allison Kopf, CEO da Agrilyst, startup norte-americana especializada em processamento de dados para fazendas. “Por ‘independentes do clima’ quero dizer um modelo indoor, em áreas internas com todas as variáveis controladas”, complementa.
O mundo deve aumentar em 70% a produção de alimentos até 2050 para atender à crescente demanda global. “Precisamos buscar sistemas alimentares que sejam independentes do clima”, diz Allison Kopf, CEO da Agrilyst, startup norte-americana especializada em processamento de dados para fazendas. “Por ‘independentes do clima’ quero dizer um modelo indoor, em áreas internas com todas as variáveis controladas”, complementa.
Kopf ajuda os agricultores entusiastas da
tecnologia a coletar e avaliar dados referentes às suas plantações para um
controle completo do cultivo. Por meio de sensores instalados nas plantações,
eles calculam a necessidade de maior ou menor irrigação e acompanham a absorção
de raios solares e nutrientes quase em tempo real. Além disso, conseguem
controlar a circulação de ar e, assim, estabilizar a temperatura. O slogan da
empresa — “Suas plantas estão falando, e nós estamos aqui para escutá-las” —
não é só marketing. Os analistas de fato têm acesso a relatórios atualizados
constantemente com centenas de informações sobre cada uma das plantinhas.
“Mais dados nos levam a maior eficiência, o que pode
diminuir custos e gerar menos desperdício de alimentos”, ela diz. “Mas o
foco é produzir mais com menos, não só por conta de questões financeiras mas
principalmente pela economia de recursos naturais. É claro que as fazendas
indoor, sejam elas verticais instaladas em grandes edifícios, sejam estufas
construídas sobre as coberturas, não substituirão por completo a agricultura
convencional, porém acredito que contribuirão para a produção de mais comida no
futuro”, afirma.Hoje, mais de 800 milhões de hectares de terras — quase 40%
da superfície terrestre do planeta — são usados para a agricultura. Esse
tipo de cultivo é mantido há mais de 10 mil anos, o que tem gerado um desgaste
muito grande dos solos em função da monocultura e da contaminação por pesticidas.
“Se começarmos a produzir mais alimentos em um modelo indoor, precisaremos de
menos áreas abertas. Isso vai permitir que os solos recuperem seu processo
natural, restaurando os ecossistemas danificados”, ressalta Dickson Despommier,
professor da área de Saúde Pública da Universidade Columbia, nos Estados
Unidos, e autor do livro The Vertical Farm — Feeding the World in 21st Century
(A Fazenda Vertical — Alimentando o Mundo no Século 21, ainda sem previsão de
publicação no Brasil). Para o professor, o modelo tradicional de cultivo tende
a ficar ainda mais difícil à medida que o aquecimento global se
intensificar. Dados do Painel Brasileiro de Mudanças Climáticas indicam
que o Brasil poderá perder cerca de 11 milhões de hectares de terras
agriculturáveis em virtude das mudanças climáticas até 2030. “O cultivo em
áreas internas é uma boa solução porque pode ser feito em qualquer lugar, já
que as condições de desenvolvimento das plantas são facilmente controladas”,
destaca Despommier. “Também é uma ótima alternativa porque permite que os
alimentos sejam produzidos durante o ano todo. Eu sou otimista quanto a
isso, acho que as fazendas verticais se tornarão bastante comuns daqui
a cinco ou dez anos.”
COMIDA
INTERATIVA
Em Cingapura, um novo modelo de fazenda vertical está sendo construído com o intuito de aumentar a interação entre as pessoas e a comida (veja acima). Desenvolvido pelo escritório de arquitetura e design urbano Spark, trata-se de um condomínio voltado para a terceira idade que envolve telhados verdes e sacadas com cultivo de alimentos. No térreo, há uma fazenda urbana em que os próprios moradores podem trabalhar, além de áreas privativas para que eles cultivem hortaliças, ervas e até vegetais em suas próprias sacadas. Por meio de um tanque de peixes instalado na cobertura do prédio, a água rica em matéria orgânica circula por dutos por todos os apartamentos levando nutrientes para as plantas cultivadas ali. A água já utilizada, bem como aquela que é captada da chuva, é conduzida a um centro de tratamento que alimenta o tanque, recomeçando o ciclo. “Assim, garantimos alimentos frescos, crocantes e nutritivos para todos os moradores”, afirma o CEO da Spark, Chris Quin.
Em Cingapura, um novo modelo de fazenda vertical está sendo construído com o intuito de aumentar a interação entre as pessoas e a comida (veja acima). Desenvolvido pelo escritório de arquitetura e design urbano Spark, trata-se de um condomínio voltado para a terceira idade que envolve telhados verdes e sacadas com cultivo de alimentos. No térreo, há uma fazenda urbana em que os próprios moradores podem trabalhar, além de áreas privativas para que eles cultivem hortaliças, ervas e até vegetais em suas próprias sacadas. Por meio de um tanque de peixes instalado na cobertura do prédio, a água rica em matéria orgânica circula por dutos por todos os apartamentos levando nutrientes para as plantas cultivadas ali. A água já utilizada, bem como aquela que é captada da chuva, é conduzida a um centro de tratamento que alimenta o tanque, recomeçando o ciclo. “Assim, garantimos alimentos frescos, crocantes e nutritivos para todos os moradores”, afirma o CEO da Spark, Chris Quin.
“Há centenas de projetos de fazendas urbanas sendo
desenvolvidos, mas acredito que é imprescindível aumentar a interação
das pessoas com os alimentos que elas consomem”, afirma o professor
Despommier, da Columbia. O Whole Foods Market, famosa rede norte-americana de
produtos orgânicos, fez uma parceria com a Gotham Greens para que a startup
construísse uma plantação sobre a cobertura de uma de suas lojas, em Gowanus,
também no Brooklyn. Ali, o mercado se orgulha de vender hortaliças cultivadas
no próprio telhado. “O fato de produzir exatamente onde o alimento será
consumido proporciona economia de até 98% de combustível do transporte, algo
fundamental para diminuir a pegada de carbono e a emissão de gases de efeito
estufa”, diz Puri. O caminho, acreditam os especialistas, é trazer as
fazendas para as cidades, onde está a maior concentração de pessoas. Só no
Brasil, mais de 80% da população vive em áreas urbanas, segundo o IBGE. A
expectativa é de que esse número ultrapasse os 93% em 2050. E as novas
tecnologias de cultivo permitem trazer a comida para perto de toda essa gente.
Espaço não falta, por incrível que pareça. Basta usar a criatividade.
Em Londres, a startup Growing Undergroung usa
túneis abandonados que funcionavam como abrigos antibombas durante a Segunda
Guerra para cultivar brotos de ervilha, rabanetes, coentro, rúcula e aipo para
consumo comercial. O local é uma mistura de batcaverna com laboratório
do Walter White, o protagonista da série Breaking Bad que fabricava
metanfetamina. Os fundadores não revelam a localização exata com medo de
depredações. “Mas podemos dizer que estamos a menos de 3 quilômetros de
distância do coração de Londres”, afirmam. Vários chefs da cidade já abastecem
suas cozinhas com vegetais cultivados nos túneis. A startup, que recebeu 1
milhão de euros em financiamento coletivo e espera ampliar sua atuação em
outros espaços, mostra que as fazendas urbanas podem mesmo ser a luz no fim do
túnel para a falta de alimentos.