Estudos revelam: além de
descuidar das represas, Estado permite exploração predatória e contaminação das
reservas hídricas do subsolo .
Por Júlio Ottoboni*, no Envolverde/IPS
São Paulo e parte dos Estados do
Sul e Sudeste do país podem entrar tanto num ciclo de desertificação como de
extermínio de suas reservas hídricas existentes no subsolo. A influência das
queimadas e do desmatamento amazônico no ciclo das chuvas nas porções mais ao
sul do país alarma tanto os cientistas tanto quanto os níveis de contaminação
das águas potáveis existentes.
Com o volume de águas de
superfície em diminuição considerável, as reservas subterrâneas estão em boa
parte comprometidas. Seja por contaminação por esgoto, pesticidas ou mesmo pela
falta de potabilidade. Há estudos sobre o uso a exaustão desses recursos em
regiões onde o aquífero tem uma distribuição demasiadamente irregular. Desde
1998, pesquisadores da USP e outras entidades alertam para a exploração
demasiada e sem critérios das águas subterrâneas, principalmente na
agricultura.
No trecho paulista, o Aquífero
Guarani é explorado por mais de mil poços e isso ocorre numa faixa no sentido
sudoeste-nordeste. Já a área de recarga ocupa cerca de 17.000 km², onde
se encontram a maior parte dos poços e grande parte dos problemas de
contaminação.
Há treze anos um grupo de
cientistas do Centro de Pesquisas de Água Subterrânea (Cepas) do Instituto de
Geociências da USP pesquisa a presença de nitrato nas águas subterrâneas. Os
estudos mostram uma crescente contaminação por esgoto urbano em diversas
cidades paulistas. Essa substância química surge em processos de decomposição
bacteriológica de matéria orgânica presente nos dejetos.
“Em locais onde não há
saneamento, a contaminação ocorre pelas fossas sépticas e negras, já nas áreas
com redes de esgoto o problema são os vazamentos. As redes são antigas e não
passam por manutenção periódica. A presença do nitrato em áreas urbanas com
rede de esgoto não era esperada de forma tão intensa”, afirma o professor da
USP Ricardo Hirata.
O nitrato é cancerígeno e pode
desenvolver diversas doenças, principalmente síndromes em crianças. São Paulo
tem uma grande dependência da água subterrânea. Segundo a pesquisa da USP,
cerca de 75% das cidades paulistas têm o abastecimento público total ou parcial
feito por águas de aquíferos.
“No Estado de São Paulo, quase
60% dos poços tubulares são ilegais, ou seja, não têm controle por parte do
estado, com possibilidades de terem problemas de qualidade de suas águas. Isso
significa que a população pode estar ingerindo água degradada por nitrato ou
outros contaminantes e não saber”, alerta o professor da USP.
Além do problema da recarga,
dificultado pela falta de chuvas, descontaminar a água com nitrato é algo caro
e algumas situações inviável. Para agravar o quadro, há uma redução drástica da
água de subsolo em diversas regiões. A supressão das matas ciliares que
recobrem as bacias tem forte impacto sobre a qualidade da água, encarecendo em
cerca de 100 vezes o seu tratamento.
O alerta para as péssimas
condições das águas, tanto de superfície como de subsolo, foi feito também pelo
pesquisador José Galizia Tundisi, do Instituto Internacional de Ecologia (IIE).
Segundo ele, em áreas com floresta contígua a cursos d’água que estão
protegida, com algumas gotas de cloro por litro se tem água para consumo
humano.
“Já em locais com vegetação
degradada é preciso usar coagulantes, corretores de pH, flúor, oxidantes,
desinfetantes, algicidas e substâncias para remover o gosto e o odor. Todo o
serviço de filtragem prestado pela floresta precisa ser substituído por um
sistema artificial e o custo passa de R$ 2 a R$ 3 a cada mil metros cúbicos
para R$ 200 a R$ 300. Essa conta precisa ser relacionada com os custos do
desmatamento”, afirmou.
Quando a cobertura vegetal na
bacia hidrográfica é adequada existe uma quantidade maior de água, por
processos naturais, essa retorna para a atmosfera e favorece a precipitação. O
escoamento da água das chuvas é mais lento, favorecendo a recarga e minimiza a
erosão. Os A vegetação funciona como um filtro natural e ajuda a infiltrar a
água no solo.
“Em solos desnudos, o processo de
drenagem da água da chuva ocorre de forma muito mais rápida e há uma perda
considerável da superfície do solo, que tem como destino os corpos d’água. Essa
matéria orgânica em suspensão altera completamente as características químicas
da água, tanto a de superfície como a subterrânea”, explicou Tundisi.
* Júlio Ottoboni é jornalista diplomado e pós-graduado em
jornalismo científico.











